"Há um tipo de torcedor de futebol que, não importam as glórias alcançadas pelo time do coração, estará sempre criticando a equipe e odiando com todas as forças cada um dos jogadores do plantel, além dos integrantes da comissão técnica e da direção. Nos estádios, esse tipo de gente costuma habitar as sociais. Eles podem ser velhos saudosos dos anos de ouro do time, jovens cansados de nunca terem presenciado um título, ou simplesmente pessoas vocacionadas para a reclamação.
Sem maiores variações entre as regiões do Brasil, esses torcedores são chamados de CORNETEIROS. A turma do amendoim. Nos últimos anos, com o surgimento das hordas do apoio incondicional, os corneteiros passaram a ser tratados como leprosos nos estádios. Não são raros os casos de agressões contra corneteiros nas arquibancadas (cornetofobia).
Mas apesar de tudo essa minoria pouco silenciosa vem demonstrando sua importância no cenário futebolístico contemporâneo. Vivemos tempos bicudos nos quais não se pode nem mais criticar aquele lateral-direito do nosso time cuja eficiência é comparável à de uma cadeira de praia. Nem a tradição de chamar o treinador de burro é respeitada. As arquibancadas dos estádios estão tomadas por fiscais de comportamento, normalmente liderados por torcedores profissionais que emprestam sua devoção em troca de mesada e algum poder.
Aqui, talvez seja possível forçar um pouco a barra e dizer, aos torcedores semifamosos do Twitter e dos debates esportivos que costumam insuflar suas tropas contra o rival: é você quem financia essa porra. Daí a centralidade da corneta na contemporaneidade. Ela é a última reserva de espírito crítico e bom senso nas arquibancadas. É a consciência coletiva das torcidas a apontar que alguma coisa pode estar errada e que não vale a pena se matar por tão pouco. O corneteiro é, acima de tudo, o sujeito boa praça que sabe rir de si próprio e, por consequência, do próprio time.
O corneteiro tem poderes visionários, pois é o primeiro a perceber que o atacante do nosso time está entrando em má fase, enquanto os demais torcedores estão entoando a última paródia da barra. Crítico do próprio clube, do massagista ao presidente, o corneteiro é um agente do controle público num tempo em que o futebol lida com cifras astronômicas. Inteligente, porque é preciso prestar atenção no time e no clube para criticar, o corneteiro jamais se mete em confusão, no máximo, se o preço do amendoim estiver impraticável.
Por isso que, da próxima vez que sentar ao seu lado um senhor irritadiço que não para um só minuto de cornetear o craque do time, não fique nervoso e trate-o como um ídolo. Aos corneteiros do mundo, só digo uma coisa: uni-vos. Vocês são nossa esperança contra a barbárie e a ignorância". Daniel Cassol, colunista do blog Impedimento

Hahaha... Um primor, esse texto. Assino embaixo!
ResponderExcluirO corneteiro é o chato imprescindível!!!
Apoio incondicional mesmo... me dói até nos olhos quando leio isso.
ResponderExcluirOs Cartolas adoram um apoio incondicinal.
Acrescentaria que o corneteiro é aquele que tá certo quando tudo dá errado e que tá errado quando tudo da certo. E o pior: vive torcendo pra estar errado.
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